click at this page Como localizar telefone e endereço Rastreador gps para celular download click the following article read more Como localizar Sistema Apps espiao para windows phone Baixar programa Reviews on mobistealth Espia de celulares para blackberry Aplicativos espiao gratis Mobile spy no jailbreak read more Spy app without target phone Rastreador de Espionar celular gratuito more info Aplicativo para rastrear celular pelo numero Como puedo Como espionar conversas do whatsapp de outra pessoa Rastrear celular samsung galaxy young Rastrear iphone Download spybubble trial version Como rastrear un celular entel Programa Free iphone Iphone 6s imessage spy Descargar Como funciona Aplicativo de rastreamento para o celular Camara click see more Software espião Como rastrear meu celular samsung galaxy young Como espiar telefonos celulares gratis Www spybubble android 4 radio apk Rastrear Escuta telefonica para celular spy camera phone charger zeus keylogger download erfahrungen handyortung kostenlos

Onda Latina

terça
17.Out 2017
Início
Eu passo de carro no meio da sala deles PDF Imprimir E-mail
Escrito por Jamil Alves   
31-Ago-2016
sala_viaduto_-_jamil_alves_-_a.jpgÉ muito boa a localização. No sentido do centro, está uma grande universidade, instalada no antigo prédio da fábrica da Alpargatas, empresa produtora de calçados. Um prédio diferente, charmoso, com bonitos detalhes arquitetônicos e ao lado de uma linha de trem (a linha 10, Turquesa, que liga o central bairro do Brás à cidade de Rio Grande da Serra).

Na via em direção aos bairros, ficam uma loja de serviços automotivos e um bem iluminado posto de gasolina, cada um ocupando uma esquina da Rua Piratininga. E é entre esses dois lados da avenida que homenageia o escritor e jornalista paulistano Alcântara Machado, nascido em 1901, que vem nascendo uma favela, que vai crescendo lentamente, como é típico de um organismo que vai sendo gerado no ventre da metrópole.

Começou como uma espécie de acampamento sob o pavoroso viaduto de concreto que passa por cima da linha do trem, viaduto que leva o mesmo nome da avenida, Alcântara Machado, ligação do centro à Mooca e a praticamente toda a região leste paulistana. Ao contrário de outras partes miseráveis da cidade, que são cercadas pelo poder público com tapumes ecológicos quando o número de habitantes torna-se indisfarçável aos olhos da cidade endinheirada, nesse ponto os tapumes são metálicos, disformes. Estão lá também papelões, cobertores grossos e outros elementos que não distingo, combinando-se para formar algo que deve ter a função de paredes. O lugar dá a impressão de que está evoluindo, deixando de ser um improvisado agrupamento de sem-teto para ser uma favelinha de verdade.

Aos olhos do poder público, é um lugar invisível. Está sob um viaduto, perto de uma linha de trem, num ponto obscuro de noite e de dia. É um ponto “sob”, e não “sobre”, daí então o motivo por que é mais fácil “varrê-lo para baixo do tapete”. O grande fluxo do trânsito que vai e volta da zona leste passa por cima do viaduto. Por baixo, especialmente na rua Piratininga, passa apenas um pequeno fluxo de carros e de pedestres, em geral de pessoas que trabalham nos arredores. Além disso, metade do viaduto pertence ao centro e à Administração Regional da Sé (para quem não é de São Paulo: a imensidão da cidade a faz ter subprefeituras, chamadas de “administração regional” pela imperiosa e velha conhecida burocracia). Os outros 50% estão na área correspondente à Administração Regional da Mooca, e temos aí panorama perfeito para o jogo de empurra-empurra das responsabilidades. Não só não impedem que essas pessoas se instalem no local como tampouco lhes prestam qualquer assistência. É mais fácil mantê-los ocultos sob o triste manto da invisibilidade, como se não existissem.

A situação desses homeless enjeitados é uma sinuca de bico. É nas ruas do centro que eles encontram comida, papelão, sobras de toda espécie, e sempre procuram abrigo perto de onde ganham o pão. Por outro lado, se aceitassem ir para bairros distantes, teriam chances mais escassas de ganhar uma graninha, um troco qualquer. O dinheiro da passagem de ônibus para ir à região central na certa lhes faria falta, sem falar que os passageiros torceriam o nariz à sua entrada. Ao que parece, pobre só tem graça em letra de música ou em texto literário.

Um dia, não lembro quando, ouvi alguém dizer que “quem gosta de pobre é intelectual”. Então, é isso: está faltando intelectualidade por aí – deve estar todo mundo caçando Pokémon, isso sim. Esses desvalidos, moradores dos tantos e quantos viadutos e malocas da cidade, permanecerão invisíveis, esquecidos, vivendo da caridade de quem os detesta, como dizia a letra de “O tempo não para”, de Cazuza.  

A cada semana, há um novo amontoado de papelão, cobertores e trapos naquele que é, para o poder público e para os “cidadãos ditos de bem”, um ponto cego, um lugar a não ser visto. Do carro, à espera do farol verde (“farol” é como os paulistanos nos referimos ao semáforo), vejo mais que cobertor e trapo: são lares. Sofás, colchões, televisores a cores ligados na clandestinidade. Bichos de estimação também, e aos montes, principalmente gordos e imponentes cachorros, completam o quadro. Parecem guardiães prontos a receber carinho, mas também a atacar qualquer pessoa que possa fazer mal aos moradores do local. É um cenário mal ajambrado que vai dando ares de casa àquelas instalações.

Debaixo desse mesmo viaduto, nem tudo é desalento. Funciona, já há vários anos, uma academia e uma escolinha de boxe, fundadas por um ex-boxeador, cuja história tive a alegria de conhecer e de contar, nesta mesma coluna, em 2015.  Ainda enquanto o farol está vermelho (e agora me dou conta envergonhado de que por medo, burrice, preconceito ou ignorância – ou tudo isso junto –, nunca passei a pé por esse lugar), observo a dinâmica daqueles desvalidos que perambulam e me sinto mal, porque eu não passo de carro numa rua: eu passo de carro no meio da sala deles.  

Nessa sala metafórica, estão muitos meninos. Sinto um nó na garganta, uma vontade forte de chorar. Vem meu filho à minha mente e não entendo por que ele tem educação, conforto, alimentação, tudo a tempo e a hora, e tantas crianças, não. Essas crianças “do viaduto” passam entre os carros como meu menino passa entre o sofá e os almofadões da sala de estar. Aquelas crianças me comovem e me constrangem. Quando o farol abrir e eu for embora, estarei me sentindo um pouco menos humano e um pouco mais verme. Gostaria de saber o que pensam, com que sonham, do que precisam, porém não tenho coragem de descer do automóvel para falar com elas. Até baixar o vidro me parece temerário. Mesmo sentado dentro de um carro e tentando autodisfarçar uma enorme covardia, desejo a elas, ainda que com certa desesperança, do fundo da alma e dos meus olhos marejados, o mesmo destino de grandes façanhas e de alegrias ilimitadas que quero para meu filho.

 
Atualizado em ( 31-Ago-2016 )
 
< Anterior   Seguinte >

Enquete

Qual é o seu ritmo latino predileto?
 
Newsletter
Receba as novidades da Onda Latina no seu e-mail.
E-mail

Nome

Sobrenome

Cidade


 

Usuários On-line