Conheci J. M. Calleja em Montevidéu em 2008 durante o Encuentro Internacional de Poesía Experimental “Amanda Berenguer” e ficamos amigos. Na época, não falava espanhol. Dessa estada nesse país muito agradável, graças ao convite de Clemente Padin (1939-2025), curador da exposição, tive a oportunidade de conhecer John M. Bennett (EUA), Cesar Horácio Espinosa Vera (México, 1939-2002), Luís Bravo, Gustavo Wojciechowski, dentre outros.

Voltei da viagem decidido a estudar espanhol e tive a sorte de encontrar o Prof. Carlos Ragel Cerdan, espanhol de Barcelona, que me ajudou a entender a língua e a cultura castelhana.

Desde 2008 Calleja me presenteia com obras que publica. Já tenho um acerto muito rico de obras de diferentes formatos, obras criativas individuais e em parceria com outros artistas, obra de organização de antologias de poesias experimentais, todas de diferentes formatos. Em 2017, o trabalho de conclusão de curso em espanhol foi dedicado à obra dele (Antonio, 2024, p. 19-41).

Venho estabelecendo, aos poucos, as necessárias comparações dos signos verbais e visuais em todas as obras que faz parte do meu acervo. A cada novo trabalho recebido, sempre que posso, faço anotações para produzir artigos. Sei que me parece válido pensar num estudo amplo de suas obras e uma resenha dos ótimos prefácios que cada volume contém.

J M Calleja – www.jmcalleja.com –, artista visual, performer e agitador cultural, conversa comigo via e-mail e sempre me ajuda a entender melhor a sua obra, especialmente porque leio em catalão com alguma dificuldade, mesmo tendo um bom dicionário como auxílio. Ele sempre tem o cuidado de explicar outras publicações onde suas obras foram publicadas. E sabe explicar o significado dos seus poemas, permitindo que cada leitor possa interpretá-las.

Costumo ler os prefácios de obras criativas depois de minha leitura pessoal, assim posso escrever mais livremente sobre a criação e, depois, comparar com o que os prefaciadores ou estudiosos escreveram.

Ciutats (Cidades, em catalão) contém vinte e quatro poemas sobre cidades reais e imaginárias vistas sob a perspectiva criativa de J. M. Calleja, como se fosse um diário poético ou um conjunto de poemas postais. O projeto artístico de Calleja sempre me intrigou pelo experimentalismo que se parece com a o procedimento artístico de Viktor Chklovsky, a montagem cinematográfica de Sergei Einsenstein e com a Arte Conceitual dos anos de 1960-1970.

A obra de Calleja se caracteriza a partir do conceito de cinema montagem Sergei Eisenstein:

          Esta propriedade consiste no falto de que dois pedaços de filme de qualquer tipo, colocados juntos, inevitavelmente criam um novo conceito, uma nova qualidade, que surge da justaposição (Eisenstein, 1990, p. 14). (…)

          Esta tendência a juntar numa unidade dois ou mais objetos ou qualidades independentes é muito forte, mesmo no caso de palavras isoladas que caracterizam diferentes aspectos de um único fenômeno (idem).

A excelência do designer gráfico, do artista visual, do performer e do poeta experimental reúne elementos da realidade para produzir diferentes significados e efeitos para o leitor. A montagem poético-imagética de Calleja junta pedaços de palavras e de imagens que, aliadas ao título, ressignificam cada uma das partes.

A arte conceitual também é uma abordagem do poeta experimental, que é artista visual e designer.

          Na Arte Conceitual, a ideia de conceito é o aspecto mais importante da obra. (…).  A ideia se torna a máquina que faz a arte. Esse tipo de arte não é teórico nem ilustra teorias; é intuitivo, está envolvido com todo tipo de processos mentais e é despropositado (Le Witt. 2066, p. 176-177). (…)

          O termo era correntemente empregado na época, para designar uma multiplicidade de atividades com base na linguagem, fotografia e processos (Wood, 2004, p. 7) (…).

Como ele dispõe palavras e imagens e propõe um título? Parece uma constante o fato de ocorrer interferências em obras já existentes. O conceito apresentado na obra Ciutats, por exemplo, traz significados pessoais de cada cidade visitada na realidade ou na imaginação do artista.  A prefaciadora Margalida Pons Jaume fala do cromatismo arenoso, que se mostra pela cor dourada pálida. As pinceladas são intervenções artísticas que despertam no fruidor da obra a vontade de entender a mensagem de cada poema experimental.

Vale transcrever o conceito de arte como procedimento, de V. Chklovski para entender melhor a obra de Calleja:

          E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos e o procedimento consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte é um meio de experimentar o devir do objeto, o que é já “passado” não importa para a arte (Chklovski, 1976, p.45)

O prefácio de Margalida Pons Jaume é um texto muito bem elaborado, que procura explicar ao leitor como entender a poesia experimental de J. M. Calleja.

Felizmente o artista visual tem sempre o cuidado de traduzir os prefácios dos seus livros em catalão para outras línguas como castelhano e inglês: Cada moment és um lloc on no has estat mai, o la rebel.lió dels vestigis; Cada momento es un lugar donde no has estado nunca, o la rebellión de los vestígios, tradução de Carlos Vitale; Every Moment is a Place You´ve Never Been to, or the Rebbelion of Vestiges, tradução de Raymond Lang; o que pode ser entendido como: “Cada momento é um lugar onde não tinha estado nunca, ou a rebelião dos vestígios”.

Calleja me informa que a doutora é uma especialista em poesia experimental e autora de um livro muito interessante para quem estuda a poesia experimental contemporânea: El cordi torbat: De la poesía experimental a l´escriputra conceptual (O código turbado / alterado: da poesia experimental à escritura conceptual). À procura de significados, Pons Jaume mostra suas surpresas, descobertas e confissões sinceras, quando não encontra significado e pede ajuda ao poeta.

A capa do livro, em formato de 17cm x 17 cm, oferece ao leitor a ideia de janelas e de recortes de objetos. A imagem, composta de pinceladas em diversas cores (dourado escuro, azul forte, preto, em contraste com as letras amarelas claras do título e do nome do autor, nos traz dimensões significativas de tijolos de uma construção ou de livros empilhados.

No poema “Lisboa”, que escolhi para comentar, as cores (dourado escuro, dourado mais claro, quase creme e uma barra azul) compõem lombadas de seis livros de Fernando Pessoa (1888-1935), indicando a ideia de mar e a presença do poeta na contemporaneidade. Um recorte criativo de Calleja, que nos traz presente e passado, pois Pessoa é o Supra-Camões com os seus múltiplos heterônimos na tentativa de apreender a cidade com sol de cor laranja dos versos de Cesário Verde (1855-1887), notado por Pablo Neruda (19014-1973), quando esteve em Lisboa.

 

Referências

ANTONIO, Jorge Luiz. J. M. CALLEJA: Interfaces da poesia: Artes, Tecnologias e Design Gráfico. Revista V@rvItu – Revista de Ciência, Cultura e Tecnologia da Fatec Itu. Itu, SP, n. 12, p. 19-41, set. 2024. Disponível em: Artigo 1.pdf – Google Drive . Acesso em 10 out. 2024.

CALLEJA, J. M. Ciutats. Badalona, Espanha: ARTeFACTES, 2025.

CHKLOVSKI, V. A arte como procedimento. In: TOLEDO, Dionísio de Olivera (Org.). Teoria da Literatura Formalistas Russos. Tradução: Ana Mariza Ribeiro Filipouski et al. Porto Alegre, RS: Globo, 1976, p.39-56.

EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Tradução: Teresa Ottoni. Revisão de texto: Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.

LeWitt, Sol. Sentenças Sobre Arte Conceitual. In: FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecília (Org.). Escritos de Artistas anos 60/70. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 176-181.

LUCAS, Constança. Superdicas Sobre Arte. São Paulo: Saraiva, 2015.

SMITH, Roberta. Arte Conceitual. In: SSTANOGS, Nikos (Org.). Conceitos de Arte Moderna. Tradução: Álvaro Cabral. Revisão técnica; Reinaldo Roels. Rio de Janeiro: Zahar, 2000, p. 182192.

WOOD, Paul.  Arte Conceitual. Tradução: Betina Bischof. São Paulo: Cosac Naify, 2002.