Às vezes, escrever exige inspiração. Algum motivo que impulsione. O sentimento, no entanto, de fracasso, de ridículo. Certa melancolia. E escreve sem outra pretensão além de escrever. Intencionava então escrever uma crônica. A ideia fixa era a da escrita. Faltava o motivo.

Às vezes, uma situação, um assunto súbito lhe surgia. Começava a escrever sem rumo e perdia o entusiasmo. Às vezes também se determinava a escrever. Não conseguia. Nada o agradava depois de rabiscar algumas linhas. Sempre o desconforto com o desnecessário, o desconforto para esconder o confessional e fingir ter esquecido a máscara, o desconforto com uma exposição patética, ser alvo de chacotas. Ao mesmo tempo, não consegue esconder o sentimento de que toda escrita não é senão ilustração do ego por meio de uma obra da imaginação. E às vezes esta, incontida, é terrivelmente sórdida.

Escrever uma crônica. Para ele, às vezes, nem súbita inspiração nem determinação. Mas sempre escrevia. Escrever era um hábito. Mesmo quando lhe faltava qualquer motivo para a escrita. Mesmo que depois, ao se ver publicado, ao passar os olhos pelas crônicas que muitas vezes relutava em publicar, não escondesse certo sentimento de pejo. Escrever crônicas era algo que fazia com frequência e não sabia o porquê. Algo para o qual era em algum momento empurrado e do qual não conseguia se desvencilhar.

Mesmo que às vezes os rabiscos impulsionados não fossem além dos rabiscos. Mesmo que a crônica procurada chamais ganhasse forma. Com esse impulso, enquanto rebolia pensamentos soltos que se entrecruzavam em sua mente refém da imaginação, lembrou, entre amigos e uma amiga, num bar na Mooca, na Rua Javari ao lado do campo do Juventus, o Resistência, nome tão apropriado quanto revelador, uma vez, e essa ideia lhe veio abruptamente como recordação vaga e insólita, de uma situação como bom motivo para o que poderia escrever.

Um dos amigos, assim começou a conversa, contou, em meio a outros bate-papos truncados, gargalhadas e cervejas, sobre um professor, na escola em que trabalharam, muitos anos atrás, um caso bizarro. “Você se lembra do Adauto, aquele calvo de cabelo longo e barba no estilo revolucionário cubano, que dava aula de psicologia no Ayres, no tempo que a gente dava aula no Estado?”, o amigo perguntou a outro amigo, que respondeu: “Não, não lembro. Professor de psicologia? Lembro de uma professora. Dele não. Aquela escola era uma zona. Refugos da Libelu que achavam que ainda tavam no movimento estudantil. Revolucionário cubano é boa. Bem daquele tempo. A professora, acho que o nome dela era Ana Maria, lembro bem que qualquer assunto e ela metia Reich na conversa”. Interrompendo as gargalhadas depois da menção à professora, em resposta à pergunta feita a outro à mesa, ele recorda o amigo dizer que a amiga interveio e disse que “faz tempo, né? Ele era esquisito, aquele cara. Meu, aula de psicologia no Estado é foda. Naquela época no Estado tinha, né? Acho que nem tem mais. Mas não acho que ele fazia o tipo Fidel. Outro professor, o de sociologia, era mais pra Fidel. Ele tinha mais o jeitão do Hélio Pelegrino. De psicólogo de gente famosa que faz pose de intelectual sério”.

Todos riram com a boutade da amiga. Ela então prossegue: “Sociologia também, será que ainda tem? Falando nisso, o Celso, era o nome dele, que dava sociologia, tive notícia que tava com câncer. Faz um tempinho já. Não sei o aconteceu com ele”. O amigo dele, então, retomando a fala, pôs-se a dizer que “ele me contou que passou por isso, vejam só, o cara era maluco; nem dá pra imaginar hoje uma coisa assim; na verdade, fico pensando como as coisas eram diferentes prô bem e prô mal: a gente tava no banheiro, mijando, ele me falou…”, dirigindo-se à amiga que, talvez sob efeito da cerveja e do barulho do bar, depois de ter a fala interrompida teria dado pouca atenção, supõe ele, pois conversas de bar são culturalmente esquecidas, entrecortadas por diversos estímulos, e exigem a disposição de escuta que se tem com quem canta embaixo do chuveiro. Os outros à mesa, supõe ele, não pareciam interessados a não ser ele, que mesmo como todos desinteressado num primeiro momento, sem entender por que aquela conversa havia começado e sob efeito da cerveja, não esqueceu o que seu amigo contou, uma situação escabrosa numa aula vivida pelo esquisito professor de psicologia.

“… enquanto o cara limpava o pau depois da mijada. O cara dava aula de psicologia. Tinha um aluno dele, ele falou. Era o mais agitado da turma. Entrava na sala e era o tipo: cheguei! Liderava a bagunça na turma do fundo. Atrapalhava a aula pra cacete. Ele com a turminha dele. Era muito chato toda hora dar um esporro na turma do fundo, ele falou”. Assim, lembra o amigo, ou tenta resumir o que lembra um tanto alcoolizado, o episódio que o professor de psicologia lhe tinha dito no banheiro da escola. E o amigo falava e continuava a falar, mesmo que os outros à mesa nem atinassem com o que era falado. “Vou no banheiro”, disse um terceiro amigo, e levantou-se. A fala ia se alongando e ficava difícil aos outros à mesa acompanhar o fio da meada. “… o cara era um saco. Um porre. Pensa um bambambã que bota banca de gostosão, ele falou. Se exibia fazendo lista das minas que tinham passado pela mão dele. Eu sabia por que os colegas dele falavam. E era papo que todo mundo sabia. Ele chamava uma colega da turma de corre mão. Quem chegava passava a mão”. Nesse momento, a amiga o interrompeu: “É uma merda dar aula para aluno assim. Já tive também aluno desse tipo. Todo machão. Se pra professor homem é um porre, imagine pra professora? Se você vacilar ele toma conta da aula”.

“… um dia, ele falou, ele tava de saco cheio”, prosseguiu o amigo, “o cara e a turminha dele não paravam de aporrinhar”. Nesse instante, o amigo que havia ido ao banheiro retornou à mesa e não escondeu o riso ao ver que a conversa sobre o professor de psicologia ainda não havia acabado. “… e então não entendi direito, ele falou, pintou um assunto de machismo e um colega do bambambã, que também era bom de papo, eu ouvi que esse colega disse que rolou que entre as minas, que entre elas, elas dizem que o bambambã é só papo, porque na hora H o bambambã brocha. Acho que foi pra provocar. Ele era o bambambã, mas não era o tipo que intimida. Era mais tipo centro das atenções mesmo. Mas o cara ficou bem irritado mesmo, ele falou. O assunto foi por aí no meio da aula e o tal professor ouvindo a algazarra e bem irritado vendo que a coisa tava incontrolável gritou prô bambambã: ‘Você é muito macho? Você já sonhou sendo penetrado?’.

O bambambã deu um baque, a classe ficou quieta um tempinho, ele falou, e depois de um tempinho: ‘Qué isso professor! Tá me estranhando? Eu sô home’. E aí ele me falou que ele disse então prô bambambã: ‘Tá bom. Mas é pra você pensar se alguma vez você sonhar que tá sendo enrabado, com um cara em cima de você. Você já pensou nisso?’. O aluno, ele falou, se contorceu um pouco na cadeira, ficou espantado com a situação inesperada. ‘Mas isso eu nunca vou sonhar!’.  Deu então o bambambã, disse o professor, um sorriso meio amarelado e um tanto desconcertado e, falou o professor, se não estivesse numa sala aula e o tal bambambã teria partido pra cima dele. O resto da sala deu sorriso meio contido e ficou num zunzunzum entre eles enquanto os amigos do bambambã ao lado ficaram meio atônitos sem entender direito por alguns segundos, até que um deles exclamou: ‘Caramba, professor, forçou a barra!!!.’. ‘Mas você não sabe o que vai sonhar; você não controla o sonho; e então se você nunca sonhou que está sendo enrabado, algum dia você pode sonhar; e se você sonhar?’, insistiu o professor apontando para o bambambã com o dedo indicador, assim ele falou”.

Então nessa hora não só ele, mas também os outros, os amigos e a amiga no bar, inicialmente pouco atentos: “Caramba! Que história maluca”. A narrativa, bastante entrecortada, não teve começo nem fim. Perdeu-se para ele a lembrança do que conversaram a seguir. E tudo, o antes e o depois, ficou entre conversas de bar, sem pé nem cabeça. Algumas cervejas e assuntos insólitos despontam, geram gargalhadas, às vezes alguma exaltação mais esquentada quando entra política ou futebol, e outros assuntos começam também sem pé nem cabeça. Ele, seus três amigos e a amiga não se viam há muito tempo. A ideia de encontro no Resistência trouxe um tanto de nostalgia a dois dos amigos e a amiga que trabalharam na mesma escola pública nos anos de juventude. Ele e o que se levantou para ir ao banheiro conheceram o restante da trupe do Estado em época bem posterior, na mesma faculdade em que deram aula também num passado já não tão próximo.

Revolvendo por alguns instantes aquela bizarra história que seu amigo havia contado no bar sobre o professor de psicologia numa escola pública que numa aula tem o descaramento de afrontar um aluno metido a macho levando-o a se inquietar com a possibilidade de que sem poder controlar o sonho poderia sonhar que estaria sendo enrabado por um homem pensou ele em um belo motivo para escrever uma crônica. Mas. Como escrevê-la? Como rechear a narrativa? Introduzir novas situações? Enquanto matutava algumas ideias lhe surgiram e com essas ideias ainda desconchavadas rabiscou em seu diário um esquema para a crônica que queria escrever. Um esqueleto, só um esqueleto, para quem sabe uma hora poder recheá-lo O motivo para os rabiscos, pensou, ele o tinha. De posse do motivo, o desafio era encontrar a crônica. Uma procura que, como com a chave da porta da casa que não sabe onde havia sido posta, quando ainda não encontrada alimenta a sensação de que jamais o seja, de que todo tempo de procura é um tempo vão.

Narrativa da crônica em primeira pessoa. Começar com um relato do porquê do encontro no Resistência e do porquê, apesar de recluso, fui levado a rever velhos amigos e uma amiga num bar frequentado por esquerdistas no conservador bairro da Mooca. Interpor outros assuntos vagos até a história do professor e no fim do encontro as despedidas. Alcoolizados, trôpegos, sem poder dirigir, sabiam que seria assim e a volta, portanto, já tarde da noite foi de Uber. Eu e meu amigo, o que contou a história do professor, voltamos no mesmo Uber e no trajeto lhe disse que a história maluca do professor instigou minha imaginação e então eu imaginei uma ficção sobre o que teria acontecido depois da aula, quando ele estivesse em casa e se preparava para dormir. “O professor à noite na cama antes de dormir, com a lembrança do entrevero com o aluno, ficou com o episódio na cabeça. Deu boa noite à esposa. Tentou dormir. O sono, contudo, demorou a chegar. Remexendo de um lado para o outro na cama ficou imaginando que o aluno tão exibicionista de sua virilidade podia disfarçar alguma queda homossexual. Finalmente caiu no sono. E, dormindo, sonhou que o aluno o queria enrabar sem lubrificante. Não havia imagens no sonho, mas apenas sensações, situações imprecisas, sem que soubesse onde estaria nem o porquê do que se passava. Ele queria ser enrabado, mas a seco não, pois não conseguiria relaxar para ser penetrado. A conversa fica tensa e o professor acabou acordando meio confuso com o sonho. Desperto, olhou sua mulher ao lado em sono profundo. Pensa ele totalmente alheia ao que se passava com ele. Perturbado por ter tido um sonho que jamais imaginou que teria. Com sentimento de culpa por ter sido de crueldade sem igual com um reles aluno bagunceiro metido a machão. A madrugada avançava. Nada de sono. Até que novamente adormeceu. Ao dormir novamente, novamente novo sonho. Nesse novo sonho, o aluno estava em sua cama enrabando sua esposa. Ele via tudo e os dois se comportavam como se ele não estivesse presente. Ele olhava a cena, atônito e mudo. Tentava gritar. Mas o grito não saia. Entrou em desespero e acordou sobressaltado. Novamente desperto, não conseguiu dormir novamente. As horas passavam lentamente com ele se mexendo de um lado para o outro da cama. Até que, nas primeiras horas da manhã, com o dia clareando, entre sono e vigília, sentiu a mão de sua mulher roçando seu pau entumecido. Preparou-se para o coito. Contudo, no momento da penetração seu pau amoleceu. Ainda sonolenta, percebeu que sua esposa não deu importância e se contentou com uma siririca…”

Após esses rabiscos, indagou se deveria organizar a redação da crônica. Guardou o caderno de notas na gaveta da escrivaninha e por muito tempo voltou a considerar a possibilidade de reelaborar e dar forma àquelas notas esparsas. Anos, alguns anos depois, remexendo antigos cadernos, se deparou com os rabiscos do qual se recordava impulsionados pela conversa com amigos e a amiga no bar. Já não tinha, no entanto, mais qualquer inspiração para a escrita da crônica que o animara num momento de bebedeira. A crônica estimulada pelo relato escabroso do amigo não foi encontrada, ficou entre tantas outras perdida na gaveta da escrivaninha.