No início desse mês de setembro, o jogador de futebol Gustavo Scarpa, em seu canal no YouTube “Canal do Scarpinha”, dedicou 10 minutos ao livro “A morte de Ivan Ilitch”, do escritor russo Leon Tolstoi. Ao usar o referido meio internáutico de alcance para um público amplo e com o status de estrela do futebol, a fala de Scarpa foi seguida de enorme repercussão.
Mas, principalmente, sua fala colocou o escritor russo no topo das vendas da Amazon Brasil. “A morte de Ivan Ilitch” está em primeiro lugar entre os livros mais vendidos no Brasil após a postagem de Scarpa no “Canal do Scarpinha”.
Isso mais que tantas coisas expressa o sentido de esquizofrenia de nosso tempo: a autoridade do jogador de futebol para legitimar a leitura de um dos maiores escritores da história. Sem desmerecer Scarpa, obviamente, nem pressupor que Tolstoi precisaria, mas a refletir: teríamos uma sociedade mais culta se desavisadamente outros jogadores revelassem suas leituras de escritores célebres? Ou, na sociedade de espetáculo como quis Guy Debord, o marketing editorial aproveitaria bem a publicidade e o produto livro de um escritor famoso não seria mais que fetiche na estante pra revelar falso status cultural?
Ler “A morte de Ivan Ilitch” na sociedade de consumo e, como quereria Debord ou Jean Baudrillard, a ida a um Shopping Center se assemelharia a Alice de Lewis Carrol caindo na toca do Coelho.






