I
“Os infindos mistérios da leitura”. Leitor voraz, assim pensava quando muitas vezes se via envolvido em conversas sobre listas de livros que dizia haver lido; listas exaustivas e que suscitavam a desconfiança de que jactava-se, de que cultivava a suspeita se teria ou não lido um e outro livro que, pernóstico, frequentemente eram citados como se – assim seus interlocutores perscrutavam – os houvesse lido até o fim.
Nessas conversas, tentava argumentar sobre as inúmeras maneiras de ler um romance e que – um tanto óbvio mas não suficientemente considerado – ler um romance até o fim é muito diferente de ler A Fenomenologia do espírito até o fim (“Um livro de filosofia jamais se lê até o fim”, ponderava com ar professoral; e, na sequência, pontuava: “Um mesmo livro de filosofia pode-se ler dezenas de vezes sem que, no entanto, jamais se chegue ao fim da leitura; cobrir todas as páginas dele e lê-lo até o fim não seria diferente da leitura capa a capa dos dois tomos do Dicionário Morais, na edição original de 1789, Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira – eu ficaria constrangido, se indagado, caso não conseguisse responder sobre o que significa ‘ignívomo’; não conseguisse sequer dizer se é substantivo ou adjetivo, tendo dito ter lido todavia o Morais de A a Z, portanto todos os seus verbetes”).
Para ler um livro qualquer refletia nesses colóquios ocasionais que “posso passar os olhos por ele de sobrevoo ou tentar sugar o máximo que possa ser sugado, palavra a palavra, sentença a sentença, parágrafo a parágrafo”. Obviamente, tinha para si que há boas e más leituras, que há circunstâncias e circunstâncias de leitura, condicionantes e condicionantes determinantes para se ler uma obra em domínios diversos do conhecimento. Por isso, em momentos distintos da vida, a aproximação de um mesmo romance não é a mesma: de uma leitura juvenil, muito do encantamento se perde com o tempo; ou, o mesmo romance lido depois passa a ter um sentido todo diferente; ou, com a passagem dos anos, uma nova leitura e revelam-se o que nos anos de juventude não havia maturidade para o que foi então coberto pelo encantamento; ou, tantos romances conhecidos na juventude têm suas leituras iniciadas e proteladas pelos acasos da vida e desta esperam a chegada do outono para que sejam lidos (“não faz muito tempo, depois de inúmeras investidas em décadas, e finalmente li da primeira à última página, com previsíveis e pequenas interrupções, Grande sertão: veredas”, passou a asseverar para ilustrar sua linha argumentativa frente a quem o interpelava sobre o assunto).
II
Sobre esse assunto, então, sobre os mistérios da leitura, vai a narrativa que segue. No longínquo ano de 1988 – esse ano não lhe escapa, pois foi nele que conheceu Ricardo A., hoje professor de literatura numa Universidade Federal, então professor numa escola pública de ensino médio apenas naquele ano que não se perdeu em sua memória provecta – Ricardo A. fazia mestrado em literatura latino-americana na USP. Estudava o poeta chileno Vicente Huidobro e dedicava também horas de estudo ao latim e ao grego no mosteiro beneditino no Largo São Bento. Precisando compor a renda familiar, com uma filha de poucos meses e esperada cobrança de sua companheira, cujo nome lhe é coberto pela névoa do passado, acorreu a aulas de literatura no ensino médio, mas no ano seguinte sua trilha seguiu outro caminho.
Despertado pela presença de Ricardo A. na sala de professores, logo o reconheceu como alguém bastante culto num ambiente docente de ensino médio numa escola pública – onde tantos estão envoltos em questões de ordem prática da vida e, por isso, tão acabrunhadamente alheios ao mundo dos livros –, dividia com ele as impressões que estava tendo com a leitura que então fazia do romance O nome da rosa, de Umberto Eco (tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade, publicado pela Editora Nova Fronteira três anos depois da edição italiana da Fabbri-Bompiani, de 1980), e com essa leitura em decorrência o atordoamento que estava tendo com as inúmeras citações em latim (“acho que um quarto do livro é em latim”, disse deslumbrado a Eduardo G., professor de história que, ficou sabendo ao vê-lo com o livro na sala de professores, também o estava lendo, mas que, assim constatou pela advertência que se seguiu, com nenhum interesse em qualquer conversa sobre o latim de Umberto Eco: “não é tudo isso, você está exagerando, é muito menos e eu nem noto, pois só me interessa a história que é contada…”, replicou Eduardo G. enquanto ria da menção, de supetão, que lhe foi feita sobre o latim).
Nas conversas com Ricardo A. – depois de tanto tempo suspeita que para o impressionar, além de lhe exibir o latim que de fato dominava –, ouviu dele que havia detectado – e não lhe disse o quê – um erro na estrutura narrativa do romance de Umberto Eco e que por essa razão estava preparando um ensaio, a ser logo publicado, apontando-o. Nunca o publicou; melhor: nunca teve ele notícia de tal ensaio com “O erro de Umberto Eco por Ricardo A.”. Por anos tentou descobrir onde estaria tal erro; pois “se descoberto, em que medida esse erro mudaria minha impressão do livro”, ficava a indagar. Mas, por suspeitar que Ricardo A. havia blefado, se contentou com o insucesso nas tentativas. “Jamais li em qualquer lugar, ou soube de qualquer rumor – mesmo tendo lido muito do que foi escrito por diversos estudiosos de O nome da rosa – apontando erro na estrutura narrativa desse romance e que, em decorrência, afetaria a reputação intelectual de Umberto Eco”. E foi assim, como um logro, dado o segredo que parecia conter, que entendeu a afirmação de Ricardo A.: “Espere a publicação e você vai ficar sabendo”.
Entre os tantos romances lidos ao longo de uma vida já longa O nome da rosa para ele, decerto, foi mais um que o absorveu, o estimulou e o desafiou a novas leituras. Sim, trata-se de um best-seller que projetou o nome de Umberto Eco para fora do hermético circuito de especialistas em semiótica, cuja venda foi impulsionada pelo enorme sucesso da versão para o cinema dirigida pelo francês Jean-Jacques Annaud, lançada no Brasil em 1987 e protagonizada pelo ator escocês Sean Connery, grande astro do cinema hollywoodiano, no papel de Guilherme de Baskerville, cujos métodos de investigação e estratégias de argumentação, assim como algumas circunstâncias de vida, remetem ao lógico e teólogo franciscano inglês do século XIV Guilherme D´Occam, nome proeminente do nominalismo, que preparou as condições para o empirismo baconiano e o racionalismo cartesiano três séculos depois.
Ver o filme e depois ler o livro foi naqueles anos uma mania a que ele, como muitos que estavam ao seu redor, se viu enlaçado (O nome da rosa virou fetiche e com isso circulava como indiscutível best-seller, mesmo com o peso da erudição e nenhuma concessão para longas citações em latim…). Reteve assim na lembrança o fascínio pela capacidade de Umberto Eco juntar erudição histórica, teológica, mística e filosófica medievais numa trama policialesca como as que se habituara a ler de Sir. Arthur Conan Doyle, do qual o romance O cão dos Baskervilles (Sherlock Homes investiga o assassinato de Sir. Charles Baskerville), justamente, lhe inspirou o sobrenome do personagem principal de seu livro.
O efeito mais imediato da leitura de O nome da rosa foi o de, no ano seguinte, começar a estudar latim. Nada mais oportuno para tanto que numa igreja, na paróquia de Vila dos Remédios, sob orientação do padre Domingo, da Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses. Por dois anos, então, conduzido pelo padre Domingo, estudou latim. Nesses anos de estudo de latim perdeu contato com Ricardo A.; só bem posteriormente, com o avanço da internet, da comunicação virtual e a era das redes sociais, por curiosidade consultou certa vez o lattes dele a partir de pesquisa no google e descobriu assim seu paradeiro (quatro décadas atrás, sem o google, e seu nome lhe restaria apenas como reminiscência…).
Os anos se passaram (de professor de ensino médio em matemática e física, depois de estudar filosofia, passou a professor de lógica, linguagem e semiótica em universidades…) e, anos depois, cheio de expectativa procurou de Umberto Eco O pêndulo de Foucault, seu novo romance. Sem muita certeza quanto aos momentos de leitura, acredita ter feito dois ou três tentames. Mas nunca foi até o fim. Ficava com a leitura entravada em alguma página com as abstrusas referências à Ordem dos Templários, Cabala, alquimia, doutrinas esotéricas e não seguia adiante (“impossível pensar em O pêndulo de Foucault como best-seller; o assunto teve de esperar Dan Brown e seu talento didático invulgar para aguçar o vulgo”, conjecturava). Anos depois também, como também sem uma lembrança certa de quando tenha se passado, em que circunstâncias, teve nas mãos A ilha do dia anterior. O entusiasmo que lhe faltara para ler até o fim O pêndulo de Foucault se transformou em desentusiasmo. Mal passou das primeiras páginas de A ilha do dia anterior. Esse romance lhe pareceu tentar seguir “a receita de sucesso editorial alcançada com O nome da rosa; ocorre que, ao contrário deste, Umberto Eco parece querer seduzir um leitor ingênuo cuja exigência não vai além da de um consumidor de livros com verniz de erudição polvilhada com ingredientes da cultura pop”; assim o percebeu e não teve qualquer estímulo para seguiu com a leitura. O declínio galopante do entusiasmo com novos romances em circulação no mercado a cada duas ou três estações e Baldolino, mais um romance erudito de Umberto Eco, sequer procurou ter nas mãos.
Nesse entretempo, entretanto, vez ou outra aleatoriamente voltava a folhear algumas páginas de O nome da rosa. Nesses folheados casuais, pois lhe faltava segurança, embora tentado, tentava canhestramente traduzir avulsas passagens em latim (os dois anos de estudo dessa língua morta, ainda que tenha se dedicado nas aulas do padre Domingo, não lhe permitiam ler com desenvoltura; e mesmo sendo o latim medieval mais traduzível que um clássico de Vírgilio – para ele totalmente impossível –, por não praticar frequentes exercícios de tradução acabou enferrujado: dúvidas cruciais sobre declinações e restava paralisado). Com a passagem dos anos, mesmo com o amadurecimento pela leitura até certo ponto obsessiva de tantos romances, O nome da rosa, enfim, não deixou de ser um entre outros romances para os quais sua leitura não se perdeu – como ocorreu com muitos dos quais mal lembra o título e até o autor – no emaranhado de memórias de livros lidos. Por outro lado, é cônscio de que ao chegar à maturidade – sim, para um sexagenário – O Nome da rosa, e nele a erudição de Umberto Eco, deixou de ter o fascínio que teve quando o leu pela primeira vez, na casa dos vinte anos.
III
Recentemente, por impulso que não consegue expressar, tomou nas mãos novamente O nome da rosa. Por impulso que igualmente não consegue expressar, se envolveu com a leitura. E, obviamente, sem o mesmo entusiasmo e com experiência e repertório de leitura que não tinha quatro décadas atrás, mais uma vez leu O nome da rosa até o fim. Nas últimas páginas, uma surpresa. Eis os infindos mistérios da leitura. Guilherme de Baskerville, ao remontar o caminho que seguiu para desvendar os assassinatos em um mosteiro beneditino medieval em uma região indefinida no norte da Itália e encontrar, como causa deles, o segundo livro da Poética de Aristóteles, que trataria da comédia e não se sabe se foi realmente escrito, mas cujo único exemplar estaria protegido na biblioteca daquele mosteiro, que se torna o ponto de convergência da trama, diz a Adso de Melk, seu discípulo teutônico: “Mas depois deve-se jogar a escada, porque se descobre que, mesmo servindo, era privada de sentido. Er muoz gelichesame die Leiter abewerfen, sô Er an ufgestigen ist… Se diz assim?”. Ao que Adso de Melk lhe responde: “Soa assim na minha língua. Quem disse?”. E então Guilherme de Baskerville lhe assevera: “Um místico de tuas terras. Escreveu-o nalgum lugar, não lembro onde. E não é necessário que alguém um dia reencontre aquele manuscrito. As únicas verdades que prestam são instrumentos para se jogar fora”.
A surpresa: sabe bem ele estava relendo o que não sabe, não tem certeza, quantas vezes essa mesma passagem passou por seus olhos desde o longínquo 1988; sabe bem ele, da mesma forma, pois por anos assunto de estudos, pesquisas e aulas, as sentenças finais do Tractatus Lógico-Philosophicus de Wittgenstein. Segue a tradução de Luiz Henrique Lopes dos Santos, que foi seu professor, em proveito da do português M. S. Lourenço: “Minhas proposições elucidam dessa maneira: quem me entende, acaba por reconhecê-las como contra-sensos, após ter escalado através delas – por meio delas – além delas (deve, por assim dizer, jogar fora a escada após ter subido por ela – Er muβ sozusagen die Leiter wegewerfen, nachdem er auf ihr hinaufgestigen ist). A lembrança de Wittgenstein e perquiriu “como posso ter lido o que li por quase quatro décadas e ser assaltado pela surpresa de que o que tantas vezes li não foi lido, pois para meus olhos é a primeira vez que estou lendo?”. Como é possível ele não ter lido em 1988 O nome da rosa se sabe que o leu até o fim e que enquanto lia tinha longas conversas com Ricardo A. sobre as citações em latim?
Pego de surpresa e estupefato, meditou: “Não conheço a língua alemã para apreciar os efeitos de diferenças semânticas entre as sentenças de Umberto Eco e Wittgenstein. Porém, eis o poder da ficção, Guilherme de Baskerville faz uma citação em alemão medieval de memória, sujeita a equívoco, lapso, ao recordar uma máxima de um ignoto místico alemão e tem como resposta de Adso de Melk para seu claudicante alemão que soa assim na minha língua. E assim sendo – eis um estupendo emprego de ironia –, vaticina que séculos e séculos depois não é necessário que o manuscrito em que a máxima teria sido enunciada seja descoberto para que seja ela novamente enunciada. Com a ironia e a Idade Média no meio, uma ponte entre Aristóteles e Wittgenstein: no segundo livro da Poética, do qual se tem apenas a indicação no primeiro livro de que seria escrito, haveria uma passagem que poderia ser citada séculos e séculos depois por Guilherme de Baskerville; assim como, séculos e séculos depois, pressagia Guilherme de Baskerville, um livro intitulado Tractatus citaria uma passagem de um místico medieval sem qualquer indicação da fonte, pois esta teria se perdido com o manuscrito que a continha. Eco, ironicamente, cita Wittgenstein sabendo que não o poderia citar para acontecimentos no século XIV. E cita Wittgenstein também para mostrar que pode não ser falsa a leitura ficcional de um suposto livro perdido de Aristóteles num mosteiro medieval, tanto quanto pode não ser absurda a suspeita de que Wittgenstein possa ter extraído a metáfora da escada de um manuscrito medieval perdido, séculos e séculos depois, sem em todo caso precisar ao menos o ter lido (para um nominalista, Guilherme de Baskerville…, Guilherme D´Occam…, palavras, nomes, são apenas signos, rótulos convenientes, sem existência real fora da mente; o nome “rosa” assim como o nome “manuscrito” são tão somente nomes…). Entrementes, o místico a que Umberto Eco se refere e não nomeia teria de fato existido ou é só produto da ficção?”.
Ao pôr essa questão, procurou saber se Umberto Eco havia ficcionalizado um místico que teria enunciado a máxima do Tractatus de Wittgenstein. Não houve surpresa na investigação feita. Sabia ele, embora não tivesse propriamente estudado, da influência de Mestre Eckhart sobre o idealismo alemão, sobre Hegel, assim como, ao ler a biografia de Heidegger por Rüdger Safranski, que os ensinamentos daquele teólogo místico do medievo exerceram enorme atração em pensadores alemães ao longo da história. Essa então a pista que seguiu para averiguar:
“Sem nomear, Umberto Eco citou Wittgenstein. Sem nomear, Wittgenstein alude a Johannes Eckhart, mais conhecido como Mestre Eckhart, contemporâneo de Guilherme de Baskerville que, acusado de heresia, até nossos dias acende debates no seio da Igreja Católica. Alude porque a referência é indireta, pois Johannes ou Mestre Eckhart não usa a metáfora da escada em nenhum lugar que escaparia à lembrança de Guilherme de Baskerville. Contudo, se para Wittgenstein a escada, instrumento para um fim, uma vez que este seja atingido pode ser abandonada (ao realizar seu propósito, torna-se desnecessária), do mesmo modo para Mestre Eckhart os meios místicos são instrumentos para um fim, a purificação da alma e o encontro com a Divindade, uma vez atingida essa finalidade, devem ser abandonados, pois tornam-se desnecessários (a palavra-chave que os liga é “abandono” com o sentido de desprendimento, de abnegação, que se pode extrair do Sermão 57, O silêncio da criação, obra em língua vulgar, o alemão, de Mestre Eckhart). Isso eu li ao fazer no google uma investigação e encontrar renomados comentadores que estudaram o nexo entre a metáfora da escada de Wittgenstein e o místico das terras de Adso de Melk que viveu no século XIV e não nomeado por Umberto Eco”.
Assim, quase quatro décadas depois, ao fechar mais uma vez a leitura de O nome da rosa, tem plena consciência de novamente não o ter lido. Tem plena consciência, igualmente, de que quase quatro décadas atrás a leitura de O nome da rosa o deixou imensamente fascinado. Tem plena consciência, por fim, de que – eis os mistérios da leitura – cada vez que teve O nome da rosa nas mãos e procurou traduzir alguma passagem em latim, nessas ocasiões, como com a leitura de um verbete isolado do Morais (“ignívomo” adjetiva quem cospe fogo), de algum modo não teria senão feito mais uma leitura desse livro. Tão inacabada como quem sabe voltará a fazer nos anos de vida que lhe restam antes do sono eterno. Nesse momento, num impulso talvez não tão difícil de expressar, procura entre as estantes de sua labiríntica e desordenada biblioteca O pêndulo de Foucault para relê-lo com os olhos de um cansado e curioso sexagenário.





