Caminha para um evento na Cinemateca. Há muito a ela não ia. A ida não é para ver filmes, como frequentemente o fez, mas não o tem feito. Embora estivesse exibindo filmes da Mostra de Cinema, está indo apenas ao lançamento do livro do Alpendre, para o qual escreveu o prefácio.
Sente com isso o dever de mostrar a cara. A multidão o atordoa e lhe subtrai o humor.
Desce do metrô, na Estação Vila Mariana. Cruza a Domingo de Moraes. Segue até a descida da Sena Madureira. Passos não apressados. Desatenção ao movimento das pessoas no agito em frente a bares pelos quais passa. Após ultrapassar três ou quatro cruzamentos, lhe chama a atenção um comércio do outro lado da rua. Avista nele, um sobrado antigo, uma faixa de uma extremidade a outra da fachada, entre o térreo e o andar superior, com letras garrafais: “DESDE 1994… SABOR PARA TODAS AS HORAS… DESDE 1994”. Tem, então, despertada a atenção para a data: 1994. Retem-se na preposição, desde…, e esta lhe acende curiosidade para a passagem do tempo, para com uma publicidade que afirma algo tradicional, perdido nas brumas do tempo, cujo ano revela origem num passado distante, sobrevivência num mundo que se transforma de uma estação a outra…
A faixa com suas letras garrafais lhe faz ponderar sobre o sucesso do empreendimento, assim imagina, mesmo que, não percebe sinal evidente, ignore a que se refere o sabor para todas as horas. D´onde está, do outro lado da rua, conjectura alguma guloseima… O sobrado antigo? Um conjunto de sobrados idênticos, um conjunto residencial d´outrora…, desfigurados pelas mudanças nas fachadas, e assim vê com visual modernizado o tradicional comércio de… guloseimas.
Enquanto anda, com passadas mais contidas frente ao que vê, percebe, parede a parede ao comércio de guloseimas, que seu vizinho parece conservar longinquamente o que num passado longínquo foi sua fachada original. A pintura, sim, não é a mesma, mas a porta de entrada, janelas, um murinho baixo e uma escada com três degraus, que acessa o alpendre, lhe trazem à memória casas antigas, quando a cidade se expandia para além dos casarões dos Barões do Café na Paulista…
No sobrado vizinho, no entanto, antevê como lhe é desconcertante ver em 1994 a data de um passado distante numa construção do início do século passado desfigurada, com sua fachada modernizada e um apelo ao valor da tradição. Desconcertado, lhe vem à memória que aquele conjunto de sobrados foi erguido numa rua cujo loteamento foi impulsionado pela presença do Antigo Matadouro Municipal, que assim funcionou até o ano de 1927.
Enquadra os dois sobrados e os fotografa, apenas pelo hábito de fazer um registro que jamais voltará a ver (esse enigmático hábito moderno de fotografar tudo…). Continua a descida da Sena Madureira. Chega ao Matadouro Municipal e, no tumulto, avista o Alpendre, que escreveu um livro sobre cinema hollywoodiano dos anos 70.
Ilustração de Franklin Valverde.




