Deitado; olhos fechados depois de dispersiva leitura; poisa Junta-cadáveres de Juan Carlos Onetti no colo; sente o embalo da rede ouvindo o murmúrio longínquo das ondas do mar enquanto tenta, ensimesmado, compor pueris inexplicáveis explicações sobre a condição humana.

Abre os olhos; é cedo; tomou já o desjejum; acredita que todos na casa não acordaram; sem relógio, supõe seja 9h; pouco depois da laudes matutinas; vê o céu; sem nenhuma nuvem na bela manhã de verão; fixa o olhar na azuleja celeste.

Fosse noite, sim, veria a escuridão do firmamento, polvilhado por estrelas cintilando na vastidão do cosmos. O céu de dia é azul, e isso não é senão um truísmo. Tanto quanto dizer que a maçã despenca da árvore e é atraída para o chão.

Essas verdades evidentes, todavia, são explicadas pela física. Por meio dela, sabe-se por que durante o dia o céu é azul e à noite escuro. O que vejo diante de meus olhos, o azul do céu, não é, no entanto, o azul nas coisas palpáveis; aquilo que um filósofo chamou de res-extensa.

Da rede, imagina, começa a flutuar na direção do azul que vê. Imagina que quanto mais se elevar a azuleja celeste continuará azul, sem qualquer alteração, sem qualquer possibilidade de tocá-la. Imagina que possa se elevar até o ponto em que transpasse a atmosfera terrestre. O azul, a física explica, desapareceria e, como a noite, o céu ficaria escuro.

O azul que agora vejo, o céu, durante o dia, esse azul não existe, é ilusão. Permanece deitado ao balanço da rede. Como é possível, isso que vejo, o azul do céu, belo truísmo, ser tão só ilusão? Ou, como é possível estar nele o tempo todo, sabendo que ele, o azul, está distante e intocável?

Vamos pra praia, ouve; você não vai? Tá todo mundo pronto; se isola nessa rede e não se comunica; já tomou café? Já, já tomei; eu vou, eu também vou; tô terminando um capítulo deste livro.

“Ela voltou a me tranquilizar, tão alheia à minha incredulidade como o fio de saliva que se esfria e se estira de sua boca ao assento da cadeira, recuperando seu sorriso vazio, maravilhado”, capítulo 5, tradução de Flávio Moreira da Costa, Livraria Francisco Alves Editora, 1980.

 

Ilustração: Franklin Valverde