No cinema brasileiro alguns personagens, cineastas, se projetam para além de suas obras. Acabam, com isso, criando em torno deles mitificações e mistificações em igual medida. Obra e vida se entrelaçam e estimulam os mais diversos pontos de interrogação sobre motivações para filmar, decisões cruciais quanto ao rumo de suas carreiras e questionamentos de fundo sobre como interpretá-los, explicar a relevância do que fizeram para gerações posteriores.

Nesse sentido, casos ao acaso para mim com trajetos singulares em nossa filmografia: Mario Peixoto e seu Limite (1931), um filme isolado que fez de seu autor uma das figuras mais indecifráveis do cinema brasileiro; José Agrippino de Paula, que com Hitler IIIº Mundo (1968) não teve no cinema senão mais uma das possibilidades de manifestação de um espírito contracultural da geração desbunde; José Mojica Marins e Zé do Caixão num amálgama, algo como um ovni a exigir que pensemos nos limites da encenação, do nonsense e da criação artística com recursos mínimos em condições adversas; Ozualdo Candeias, à margem e assim A Margem (1967) um ponto verdadeiramente fora da curva.

Bem entendido, não são casos isolados; são nomes que, fortuitamente, me vem à lembrança agora; a lista aqui, é certo, poderia se estender. Tão recentemente tenho no horizonte o praticamente invisível cinema de Lincoln Péricles. Mas o que me move para esta resenha é o cinema de Walter Hugo Khouri e o livro O cinema de Walter Hugo Khouri (Cosac, 352 p.), escrito por Donny Correia. Tanto quanto os cineastas acima mencionados, Khouri é um personagem singular que, com temperamento diametralmente aposto ao de um Mario Peixoto, legou em condições bem peculiares uma obra vasta para a realidade da produção cinematográfica brasileira: vinte e três ou vinte e quatro longas-metragens – do primeiro, O Gigante de Pedra (1953), restam fragmentos. Fosse tão só pela quantidade, seu nome seria incontornável (no Brasil, com longas-metragens sem apelo popular lançados comercialmente, é em feito notável). Entrementes, principalmente, seus filmes, sua obra, realizada ao longo de quatro décadas e meia, exibe uma maneira de pensar a realização cinematográfica, a criação artística em sua mais ampla acepção, sem concessões destacáveis frente a toda sorte de humores, embates e entraves para filmar em conjunturas políticas, econômicas e socias tão diversas quanto instáveis.

Tratar desse personagem idiossincrático em nossa cinematografia é o desafio a que se impôs Donny em seu livro. Com exceção de O Anjo da Noite (1974) e As Filhas do Fogo (1978) (para Donny são filmes que valeriam um livro à parte, pois com eles a imersão khouriana no que se convencionou chamar gênero terror, que em certa medida o afasta de seus temas recorrentes), O cinema de Walter Hugo Khouri cobre de O Gigante de Pedra a Paixão Perdida (1998). Chamo a atenção para o fato de que Donny adota exposição cronológica, filme a filme conforme foram lançados. Com esse procedimento, atém-se essencialmente às circunstâncias de produção – fontes de financiamento, elaboração de roteiro, formação de equipe, escolha de elenco –, à exposição detalhada do enredo, a comentários pontuais que um filme enseja e, igualmente, como esse filme foi recebido pelo público com o retorno de bilheteria e pela crítica.  O livro, na verdade, não segue rigorosa e esquematicamente essa estrutura, mas cada seção, ainda que nem sempre explicitado em seu respectivo título, é dedicada a um filme com a sequência expositiva aqui indicada.

Creio, para o leitor em sentido amplo, essa escolha na organização do livro seja bastante eficaz e atrativa. Ele pode, pois, acompanhar pari passu o amadurecimento de uma obra em construção tanto quanto – dependendo da maior ou menor familiaridade ou interesse nos filmes de Khouri – optar pela leitura isolada de uma ou outra seção que lhe seja mais interessante, ou que lhe desperte mais curiosidade. Esse procedimento permite a Donny, ainda, esquadrinhar os diversos momentos da carreira de Khouri paralelamente ao contexto histórico de realização cinematográfica brasileira. De sorte a que se explicite qual é o fio condutor que orienta cada fase na qual a obra de Khouri foi concebida.

Assim sendo temos a divisão do livro em partes que rementem às fases que demarcam sua extensa produção: na década de 1950 (Do Noir ao épico), em seus primeiros filmes, as marcas do esquema de produção da Vera Cruz e uma maneira de filmar que emula o que os franceses naqueles anos reconheciam como “cinema de qualidade”; na década de 1960 (Trilogia cinza), a irrupção do Cinema Novo com ambição de abranger a questão da identidade nacional ao tomar o cinema como expressão de contradições políticas e sociais em confronto com a proposta khouriana de um cinema intimista, centrado no indivíduo, em dramas “existenciais” de uma elite enfastiada; na década de 70 (Trilogia do abismo), nos anos de chumbo da ditadura e do esfacelamento do Cinema Novo, a relação cinema e Estado com este  regulando a produção e distribuição daquele, o surto ou ciclo de produção popular em larga escala e de apelo erótico na Boca do lixo e o cinema de Khouri no meio fio; na década de 1980 (Maturidade polêmica), refluxo da produção nacional, crise econômica, apagão do cinema brasileiro e Khouri bastante ativo e no epicentro de uma polêmica com a realização do drama erótico-político Amor, Estranho Amor (1982). Entendo apenas que, na lógica empreendida para a divisão das partes do livro, poderia ser incluída uma que exporia Khouri como peixe fora d´água no momento da Retomada do apagão.

Embora sem entrar propriamente em detalhes pontuais, controversos e que ensejaram acalorados debates, Donny cobre esses momentos e neles situa como os filmes de Khouri se realizaram, de algum modo no contraponto, em atrito e, igualmente, em diálogo com os respectivos contextos históricos. Sem entrar em detalhes, esclareço, porque escaparia ao propósito do livro. Aliás, suficientemente expresso no título “O cinema de Walter Hugo Khouri”, titulo que, numa primeira visada, suscitaria especular em decisão de editor que pensa na venda e numa chamada publicitária para atrair o consumidor. Ocorre que já pelo titulo dado ao livro Donny se esquiva de duas expectativas que o leitor poderia ter: a de que leria uma biografia, ou mesmo um perfil biográfico; a de que Donny se aprofundaria para dar respostas a respeito das razões pelas quais a complexa e profícua obra de Khouri tenha caído no esquecimento e hoje seu nome seja praticamente ignorado pelas novas gerações.

Com efeito, para um leitor ávido por biografia, perfil biográfico ou mesmo por revelações espetaculares dos bastidores de realização de seus filmes, ou mesmo da vida pessoal de Khouri, a leitura de O cinema de Walter Hugo Khouri será frustrante. Tal qual impresso efetivamente no título, O cinema de Walter Hugo Khouri se atém ao cinema de Walter Hugo Khouri. Sim, claro, além do cinema, dos filmes de Khouri, há tímidas e evasivas menções à atuação de Khouri como crítico na imprensa paulista, ao modo como ele e o irmão adquiriam a falida Companhia Cinematográfica Vera Cruz, a momentos de negociação com produtores da Boca do lixo, articulações para filmagens em coproduções ou à tensa realização de Forever (1991) no momento mais tenebroso da história do cinema nacional, no final dos anos 80 e início dos 90. Isso para pincelar algumas situações da vida de Khouri além de seus filmes. A espinha dorsal do livro, entretanto, se sustenta pelos filmes, pelo modo como Donny os apresenta. Apenas oportuna e lateralmente, então, Donny vai além do “cinema” de Khouri.

Outra expectativa frustrada seria a que de que Donny se ateria a uma exposição minuciosa, por um lado, do embate de Khouri com os cinemanovistas, em especial com Glauber Rocha. Ao priorizar os filmes, Donny lateraliza as razões pelas quais com a afirmação histórica do Cinema Novo, tendo Glauber como figura de proa, Khouri acabou isolado e posto no ostracismo sob a pecha de que seu cinema era alienado (esse assunto, tenho por mim, espera um livro que vá além do folclore, das fofocas e das paixões). E ou se ateria igualmente, por outro lado, ao trânsito de Khouri na década de 1970 com produtores da Boca do lixo e do nicho exploitation no cinema nacional. A esse respeito, para mim, a decisão de Khouri guarda algo da afirmação do rei francês protestante, Henrique IV, que se converteu ao catolicismo para ser coroado: Paris vale uma missa (também esse assunto aguarda um livro além de fofocas e tal).

Mas, sim, certo, o título do livro exime Donny dessas questões. Ainda que, não posso me eximir de mencionar, Donny em certa medida me pareça – guardados os procedimentos estruturais que adotou para confeccionar o livro – excessivamente minucioso aos detalhes que envolvem Amor, Estranho Amor, a estrelar Xuxa e o veto à circulação desse filme em VHS no início dos anos 90 (Eu ignorava completamente a relação de amizade entre Pelé e Khouri e, em razão dessa amizade, a escolha de Xuxa, que namorava o rei do futebol, para atuar nesse filme). Nesse caso em especial, mesmo sendo inegavelmente atento ao filme, Donny concede a minudências de bastidores sobre a polêmica. Para um leitor jovem, creio, distante do momento de realização do filme, com Xuxa ainda fortemente presente na mídia e os recursos hoje disponíveis em plataformas na internet, quem sabe uma isca apropriada para entrar no universo cinematográfico de Walter Hugo Khouri. Se não foi essa a intenção, não subestimo os efeitos para um jovem hipotético leitor de O cinema de Walter Hugo Khouri. Nesse caso, de qualquer forma, Donny vai além de tímidas e evasivas menções referente ao imbróglio jurídico com atenção à Xuxa e que, em decorrência, promove o cineasta e o filme.

Um aspecto, ainda, que vale ressaltar aqui. Donny teve acesso aos arquivos, documentos, acervo de Khouri. O cinema de Walter Hugo Khouri não propõe sequer um perfil biográfico superficial de Khouri. O livro explora, sim, quando convém à economia da escrita, momentos pontuais e oportunos da vida de Khouri. De modo que muito do que foi acessado, com exceção da polêmica envolvendo Amor, Estranho Amor, não foi, e não seria o caso, explorado como poderia numa biografia. Infelizmente, não temos uma, digamos, “biografia definitiva” de Khouri (como afirmar ou negar que Marcelo, personagem de grande parte de seus filmes, é seu alter. ego com informações escassas sobre sua vida?). Aliás, sequer como nomes representativos do Cinema Novo – Cacá Diegues, Paulo Cezar Saraceni, Glauber –, e mesmo fora do Cinema Novo Anselmo Duarte com Adeus cinema, Khouri legou suas memórias. Se Donny tiver disposição e ainda lhe seja franqueado o acervo, eu o aconselharia a seguir em suas pesquisas com Walter Hugo Khouri e nos proporcionar uma “biografia definitiva” desse personagem tão singular e em igual medida, como Donny faz questão de acentuar em seu livro, não suficientemente conhecido de nossa cinematografia.