Aula interrompida e um rapaz vindo da Igreja, assim foi anunciado pela professora, fala sobre a primeira comunhão e que às quintas à tarde, às duas da tarde, vai ter aulas de catecismo. Ouço o rapaz com atenção apenas ao horário das aulas de catecismo, que serão na Igreja. Já sabia, pois no terceiro ano, este é o ano em que fazemos a primeira comunhão. A professora, dona Dinorah, depois que o rapaz da Igreja saiu, fala alguma coisa que não tem minha atenção a não ser sobre a importância da primeira comunhão para os católicos.

Duas alunas, que são crentes, se manifestam timidamente…; um aluno, que também é crente, o Jacy…; nesse momento certo alvoroço se instaura e ouço ao meu lado os bagunceiros da classe tirarem sarro dos modos afeminados do rapaz da Igreja. A professora pede silêncio com rispidez. A aula, então, continua. O assunto não sei ao certo. Estou só pensando que, além da aula da manhã, às quintas à tarde também vai ser dia de ir à Igreja. A escola fica a dez, doze minutos de casa; a Igreja a quinze, dezesseis, não muito mais que isso. Tudo depende da pressa, de atrativos que por ventura encontre no meio do caminho… Mas, caminho sempre sozinho para a escola; ou, acompanhado por meus pensamentos. Se nada desvia minha atenção, no meio do caminho imagino que hoje vou pensar sobre…

Meu pai reza sempre que acorda. Tem um gestual bem característico com o polegar direito ao fazer o sinal da cruz para, em seguida, ficar ciciando com as mãos juntas coladas no peito o Pai Nosso… Mas ele não vai à Igreja. Nunca vi meu pai na Igreja; a não ser na Basílica de Nossa Senhora em Aparecida do Norte, quando vamos em romaria todos os anos. Não acho que ele é católico. Tampouco ouvi meu pai dizer que não é. É crente em Deus; ou, é temeroso. Acredita em Deus, na ira de Deus para punir os pecadores.

Acho que é isso, se não rezar ele deve achar que vai ser castigado, pois na verdade, com exceção do rito da reza ao acordar, sua vida transcorre sem qualquer sinal de religiosidade. Minha mãe, ao contrário de meu pai, eu nunca vi rezar ao acordar. Sim, claro, ela sempre é a primeira a se levantar. Às seis da manhã ela já está em pé. Antes de me levantar, e me preparar para ir à escola, as aulas começam às sete da manhã, sou despertado pelo barulho que minha mãe faz na cozinha, pelo rádio ligado no programa do Zé Béttio…

Mas ela expressa no dia-a-dia uma religiosidade contida. Recebe em casa vizinhas em dias de novena; vai a novenas na casa das vizinhas; alberga a imagem em gesso de Nossa Senhora que passa de casa em casa; cultua os santos da Igreja Católica; é devota de Santo Expedito; mantém imagem em gesso de Santo Expedito, que comprou em uma de nossas idas à Aparecida do Norte, no relicário na entrada da sala; expõe na parede rente à mesa da cozinha réplica de A última ceia… Aos domingos, ela não vai à missa, no entanto; ou, vai raramente… Eu ouço minha mãe dizer que sente falta de ir à missa, que está em dívida com Deus…; e ouço também, para as amigas, ela se justificar dizendo não ter tempo…

Minha família é a típica família católica não praticante. Mas, temerosa a Deus, não temos praticamente envolvimento com pessoas que conhecemos e que são os parcos crentes na vila…, nem com judeus, pois não conhecemos nenhum judeu, nem com macumbeiros que sei fazem macumba nas encruzilhadas das ruas. Sempre ouço, dos mais velhos, que macumba é coisa do diabo e fico aterrorizado quando vejo despacho numa encruzilhada. Já vi meninos na rua chutarem um despacho e…

Na escola, na minha classe, no Siqueira, uma escola pública, tem colegas que são bem envolvidos com a Igreja. Aos domingos, as famílias inteiras vão à missa. A família do Vandeco, a do Régis, a do Piba, a da Ana Paula, a da Sônia, a da Kika…; o Vandeco e o Régis são coroinhas. O Vandeco me falou uma vez que ao terminar o Primário vai entrar no Seminário. Eu gosto de ver os dois, as vezes em que vou à missa aos domingos, nas poucas vezes com a minha mãe, ajudando a celebração. Sinto uma ponta de inveja deles. Uma ponta de inveja das famílias em que todos vão à missa aos domingos. Assim, como em casa apenas a minha mãe às vezes, bem raramente, vai à missa, com nove anos eu frequento pouco a Igreja, pois sozinho eu não vou à Igreja… Isso embora vá sozinho todos os dias à escola. O caminho é praticamente o mesmo. Uma pernada um pouco alongada além da escola e chego à Igreja.

Moro na rua Bem-te-vi, número 47. Uma rua curta, mede não mais que cento e cinquenta metros, com casas dos dois lados em sua extensão. Por isso, preciso fazer um “U” em qualquer sentido para chegar à rua Sabiá, que é paralela à rua Bem-te-vi. Paralela à frente da minha casa. Pois a rua paralela ao fundo da minha casa é a rua Pardal… Então, por qualquer dos lados que vá, na rua Sabiá, que tem a mesma extensão da rua Bem-te-vi, ando sessenta, setenta metros, não mais, e chego ao entroncamento dela com a rua Canário. Mais uma rua com nome de pássaro; tudo nome de pássaro; tem também entre as ruas da vila a rua Andorinha, a rua Arara, a rua Uirapuru, a rua Tuiuiú, a rua Garça, a rua Pavão… – pássaro ou ave… Todas são ruas de terra batida.

A rua Canário é longa, a mais longa da vila; um bom pedaço dela é uma linha reta, mas perto da metade uma curva acentuada e ela fica serpenteante. Longa? Acho, mais de um quilometro, bem mais… A margem direita contorna a lagoa, que começa ladeando metade da rua Sabiá e é circundada por uma vegetação ripária, pés de mamona, ciprestes, capins, aguapés…; a lagoa se estende até perto do rio Tietê, uns três quilômetros da rua Sabiá, o que dá um ar rural à vila; com frequência vejo cavalos pastando perto da lagoa em minhas caminhadas… Na margem esquerda da rua Canário, no caminho de ida para a Igreja, poucas casas se aglomeram, separadas por vários terrenos baldios.

Um único comércio. O empório de Secos e Molhados do seu Panquinha, um português que quando escarrava dava para ouvir o escarro da minha casa. Nele, no empório do seu Panquinha, a pouquíssima movimentação na rua Canário; três ou quatro frequentes desde as primeiras horas da manhã se encontram, jogam conversa fora, pife num tamborete de madeira no lado de fora do estabelecimento, enquanto bebem cachaça e mastigam tira-gosto…; além dessa movimentação habitual no empório do seu Panquinha, alguns meninos todos os dias tomam um dos terrenos baldios para uma pelada, outros empinam pipas, outros com estilingues caçam passarinhos…

Chegando ao fim da rua Canário, e do contorno da lagoa, entro numa rua plana que vai levemente se inclinando ladeira acima, quase tão longa quanto a rua Canário, assim me parece, mas sem nenhuma sinuosidade, e que termina numa pracinha coberta por vários pés de seringueiras na frente da Igreja, a rua Nossa Senhora dos Remédios. É a rua principal, com casas dos dois lados, padaria, farmácia do seu Jesus, açougue, bazar da dona Expedita, quitanda, estúdio de fotos, banca de jornais, bar do Amílcar, e não tem nome de pássaro… Ao chegar nela, não ando mais que sessenta metros e logo no primeiro cruzamento, à esquerda, a não mais que duzentos metros, fica a escola, na rua Beija-flor. Faço esse caminho todos os dias.

Embora, com tantos terrenos baldios, como muitos colegas na escola, e também os moradores, pudesse cortar caminho. Mas, justamente por isso, o caminho que faço é feito por poucas pessoas. Cortar caminho é a regra dos moradores da vila…; na verdade não tantos e todos conhecidos.

Minha mãe não pergunta. Eu também não falo nada. Sobre as aulas de catecismo à tarde, às quintas. Procrastino a ida. Não vi importância, quando o rapaz da Igreja foi na escola e falou…; ou, prefiro ficar em casa vendo seriados na TV, Zorro, Tarzan, Roy Rogers, Durango Kid, Perdidos no espaço… “Perder a programação da TV para ir à Igreja?” Minha mãe apenas sabia da primeira comunhão, que com nove anos eu devia fazer primeira comunhão, mas não que eu tinha de ir a aulas de catecismo.

Caso ela soubesse, de qualquer forma, nunca fez qualquer menção a aulas de catecismo que eu deveria frequentar para fazer a primeira comunhão. Um dia decido ir. Digo para ela, depois do almoço, que vou à Igreja para aula de catecismo. Não dou detalhes, ela não perguntou e diz apenas para eu ir com Deus. Ao chegar à Igreja, lembro nunca ter avançado além da nave. Notava uma porta oval na lateral esquerda do transepto.

Notava que o padre saia dela para celebrar a missa. Notava que auxiliares do padre, acólitos, coroinhas, o Vandeco, o Régis, entravam e saiam por essa mesma porta. Chegando à recepção, falo com a senhora que me atende que estou ali para as aulas de catecismo. Sou orientado a passar pela tal porta. Logo depois dela, tem uma escada em caracol. É para eu descer e no corredor, no subsolo, seguir direto e virar à direita…, depois novamente à direita…, e depois…, mais um corredor e na terceira porta à… é onde é dada aula de catecismo. É para fazer o percurso em silêncio…; sou fortemente advertido para entrar na sala sem bater na porta. Apavorado, ao descer a escada, me deparo com uma pequena saleta, a sacristia, que se estreita numa curva à direita, sem saída à esquerda…; sigo adiante, mas não consigo mais lembrar do caminho…; vejo duas, três, quatro portas de um lado e do outro de um dos corredores a que chego, depois de passar por dois corredores, e reluto em entrar sem ter certeza; entro em pânico e fico com receio de não conseguir achar o caminho de volta.

Embaraçado, sem poder pedir ajuda, sem encontrar ninguém para me ajudar, paro alguns segundos… Não consigo encontrar a sala para a aula de catecismo. E, com dificuldade, suando, completamente molhado, ofegante, consigo voltar à nave. A senhora, na recepção, não sei se deu conta de minha saída atabalhoada e repentina e que eu havia me perdido no labiríntico subsolo da Igreja.

Ao acaso, ouvindo conversa na escola no meio da semana entre os meus colegas, fico sabendo que a missa de domingo é a do dia da primeira comunhão. Um chuvoso domingo de setembro. Acordo e, como meu pai, rezo antes de me levantar. Como ele, também, faço o gesto característico do sinal da cruz com o polegar direito. Em pé, digo para minha mãe que é dia da primeira comunhão. Não há nenhum preparativo. Ela só meneia a cabeça num gesto a indicar: Hoje! Com essa chuva!

Sigo eu então o rito do dia-a-dia como se estivesse indo para a escola no dia de domingo. Escovo os dentes, lavo o rosto, penteio o cabelo, visto o tênis conga preto já gasto comprado na feira de sexta-feira na rua da Igreja, uma calça tergal da Ducal que mescla as cores verde-oliva e chumbo, a camiseta com fundo bege bem claro e três conjuntos de listras horizontais bem fininhas e bem próximas de cores vermelho-sangue e azul-cobalto separados entre eles mais ou menos quatro centímetros, a japona azul-marinho com duas fileiras verticais de três botões dourados motivo de debique para os colegas na escola o que me irrita, tomo café preto numa xícara de ágata branca, degusto uma lasca de pão sovado amanhecido sem manteiga e saio sem guarda-chuva.

A chuva alterna momentos mais intensos e leve garoa. Minha mãe me pediu para eu levar o guarda-chuva. Eu respondi que não precisava, pois a chuva está fraquinha e eu já havia uma vez perdido um guarda-chuva na escola… Mas o tempo não abre, contudo. Saio às 9h40 para a missa das 10h. No caminho encontro as ruas lameadas e poças e mais poças d´água que tenho de desviar. Não caminhei muito e tenho o conga e as barras da calça completamente lameados. Não tinha como evitar.

Tendo completado o percurso até o final da rua Canário, o incômodo com a lama me deixa tenso. “Chegar na Igreja cheio de lama para a primeira comunhão?” Mas, assim como eu, meus colegas que também fariam a primeira comunhão também teriam que cruzar as ruas da vila e todas as ruas estavam encharcadas, enlameadas. Tomo então a margem esquerda da rua Nossa Senhora dos Remédios, passo o cruzamento dela com a rua Beija-flor, sigo em frente uns cem metros e vejo uma poça avantajada adiante. Na extremidade oposta à poça, uma árvore retorcida entrelaçada numa cerca viva e no chão um morrinho revestido pelas raízes dela que posso alcançar num pulo e me segurar em seus galhos. Calculo o pulo. Meu pé direito derrapa num ponto da raiz da árvore retorcida e me estatelo no meio da poça. Caio com tudo com o lado esquerdo do flanco.

Um sentimento de vergonha me cobre completamente. “Não tem ninguém na rua que viu minha queda”. Penso que não… Mas agora, além dos pés pesados de barro, minha bunda e a japona estão encharcadas com água de lama. Apesar da chuva e de um frio não tão intenso, a temperatura de meu corpo sobe e eu suo em bicas. “Não dá para continuar. Impossível. Tenho que voltar para casa e não fazer primeira comunhão”. Por alguns segundos hesito… “Voltar para casa e dizer o quê? Chegar na Igreja enlameado como estou?” Fricciono a mão direita na bunda esquerda e no ombro esquerdo e no cotovelo esquerdo e na cocha esquerda na tentativa desesperada de tirar o excesso de lama. Vejo que assim, mesmo com lama nos pés, ninguém ia perceber que eu caí numa poça. E todos teriam tanta lama nos pés como eu. Lavo as mãos com a água da poça e decido fazer a primeira comunhão.

Celebrada pelo padre Domingo, a missa está na metade, na homilia. Padre Domingo, o pároco, impressiona pela serenidade, sentimento de ternura e integração com os fiéis. Sua presença me transmite calma, conforto. Tem acho mais de cinquenta anos, sessenta anos… Não sei a idade dele. É aos meus olhos um homem alto. Cabelo ralo e longa barba brancos. Sempre com a batina preta quando não está celebrando a missa. Em algum lugar, ou algum filme em que vi alguém se referir a um padre com a palavra “misericordioso”, e para mim é assim que vejo padre Domingo.

Na Igreja, lotada, fico em pé próximo à porta principal ao lado de outras pessoas também em pé. Após alguns segundos, lanço um olhar às primeiras fileiras. Avisto o Vandeco, a mãe dele, o pai dele, o irmão dele, que é mais velho do que ele. Avisto o Régis. Também ao lado da mãe, do pai. Avisto a Sônia, que mora na rua Canário, numa casa separada do empório Secos e Molhados do seu Panquinha por um grande terreno baldio… A família dela, a mãe, que está ao lado dela, sei que é muito religiosa.

Padre Domingo então no final da celebração fala sobre o sentido simbólico da primeira comunhão. Ouço a fala dele e fico com sensação de que sou presença estranha. Percebo e me intrigo ao ver o Vandeco e o Régis com o uniforme da escola: calça azul-marinho, sapatos pretos e camisa branca com mangas compridas imaculados. Tento avistar outros colegas da classe, e até onde consigo ver todos vestidos da mesma forma. Só eu estou vestido como estou. Terminada a fala, para receberem a hóstia, padre Domingo chama pelo nome um a um os meus colegas de classe que estavam na missa da primeira comunhão. Aguardo ser chamado, impaciente; ouço um nome, mais um, mais um…, mas meu nome não é chamado.

A missa está encerrada, as pessoas começam sair da Igreja lentamente, festivas. Vandeco, de longe, me vê e não consegue esconder o riso de escárnio. Estático, não sei o que fazer. Abaixo os olhos e vejo meu conga tomado de lama e pedaços de barro por onde circulei rente à entrada da porta principal da Igreja. Cruzo a entrada da nave e paro no átrio. “Voltar para casa e dizer o quê?” Fico ruminando a situação. “Todos receberam a hóstia, eu não, por quê?”

Murmuro minha incompreensão e no alvoroço após a missa ouço vagamente, ou me fica a sensação de que do átrio todos estão indo lanchar no pátio na ala lateral externa da Igreja. Um ritual de confraternização entre as famílias e seus filhos abençoados por Deus nesse rito iniciático mediado pela alimentação. Enquanto murmuro, sem entender o que está acontecendo, noto que o padre Domingo me vê, dirige-se a mim, curva-se de modo a aproximar seu rosto do meu:

– Você não vai lanchar com os outros, meu filho?

– … Padre, … eu…, eu não fui chamado… para tomar hóstia…, eu…

– Você não veio às aulas de catecismo? A confissão…, quem fez primeira comunhão…, foi na quinta-feira…

– Não! Eu…; eu não sabia…; então…; eu esqueci…

– Filho, para receber a hóstia você precisava ter vindo às aulas de catecismo; e fazer a confissão, como seus colegas fizeram na quinta…

Tento dar sentido a essas palavras…; começo entender o que ocorreu…; as aulas de catecismo…; não fui…; apenas um dia tentei…; estou aqui para nada…; tudo isso, essa lama, o tombo, a chuva, tudo que está acontecendo; minha mãe…; a escola amanhã…; meus colegas imaculados…; o Vandeco…; a camisa branca bem engomada de mangas compridas abotoadas…; a vergonha…; a japona motivo de gozação pois me dá aparência aos meus colegas de esquisito como personagem cômico do cinema mudo, geralmente um policial destrambelhado…; mas…; Padre Domingo afaga minha cabeça e continua:

– Não fique triste; no ano que vem você faz as aulas de catecismo e a primeira comunhão; agora, vá lanchar com seus colegas; e não fique triste…; tudo está bem…; esse ano você não fez a primeira comunhão, mas vai fazer no ano que vem; que Deus o proteja, meu filho.

 

Ilustração de Franklin Valverde.