Borges, sabia (casualmente lia o perfil que ele escrevera sobre si mesmo em Elogio da sombra), era muito zeloso com seus escritos.

Certas recorrências em seu comportamento – obsessividade com catálogos, fetiche por taxologias, labirintos, fichamento compulsivo de livros, leitura incontrolável de verbetes de enciclopédias – e em outros tempos poderia ser diagnosticado com Transtorno-Obsessivo Compulsivo, a se levar em conta, pondera, a classificação do DSM-5-TR, o qual, com suas constantes e intermináveis revisões, o faz pensar no borgiano livro Outras inquisições – dele, o ensaio O idioma analítico de John Wilkins e neste a absurda e caótica taxologia apócrifa do bestiário em uma enciclopédia chinesa chamada Empório celestial de conhecimentos benévolos. Aquilo que se escreve, contudo, pode escapar a meros registros casuais e seguir caminhos insondáveis e assim encontrar leitores improváveis. Ao viajar a Buenos Ayres, o que com alguma frequência fazia em período de férias a turismo, gostava de passear aleatoriamente no Recoleta – o ar evocativamente nostálgico desse bairro o atraia. Essas andanças invariavelmente terminavam na Libreria El Ateneo. Nesses passeios, um acontecimento lhe chamou a atenção. Encontrou, amarrada com um cordão, uma pilha de papeis na rua, deixada por algum desconhecido para ser recolhida pelo lixeiro. Teve a atenção voltada para os papeis devidamente arrumados, uma coluna com mais de 50 cm de altura, acredita, e exposta quando poderia ser envelopada em um saco plástico preto de 100 litros. Notou entre os papeis um caderno, capa dura, preta, sem pauta, tamanho 20×28 cm, 100 folhas, ou 200 páginas. Desamarrou o cordão, recolheu-o e em pé, por alguns segundos, folheou algumas páginas displicentemente. Hesitou um instante se deveria repô-lo na pilha; ora, o que conteria um caderno jogado no lixo? Todavia, por curiosidade indefinida senão por considerar que um caderno como aquele no lixo nunca havia visto antes, resolveu guardá-lo no bolso do pesado casaco que vestia. Era inverno, julho, fazia muito frio.

Ao voltar do passeio ao Hotel, o Park Plaza Kempinski, tomado pela curiosidade, abriu o caderno e logo viu que este não deixava nenhum traço sobre quem seria o autor, e que exibia rascunhos vagos de projetos de textos, fichamentos de livros e anotações invariavelmente incompletas e por vezes indecifráveis do cotidiano de um ávido, onívoro e erudito leitor. As referências a livros lidos eram tão impressionantes quanto desafiadoras. Depois de passar desatentamente por algumas páginas, se deparou com algo que o surpreendeu, com o que supostamente seriam anotações para um ensaio com o título El destino de Ulfilas. Por coincidência, embora não tivesse presente a recordação do motivo nem da circunstância, sabia sobre a existência de Úlfilas, que este fizera uma tradução da Bíblia, mas da qual não tinha qualquer detalhe além dessa vaga informação. Havia lido, sim, O caminho dos jardins que se bifurcam, de JL Borges, e suspeitou, o que logo se mostrou um equívoco, que entre os contos daquele livro pudesse conter um sobre Úlfilas. Mas, sim, uma rápida inspeção no Google e logo descobriu que Úlfilas ocupara a atenção de Borges, que lhe dedicou justamente o ensaio El destino de Ulfilas, publicado na revista Buenos Aires Literaria em fevereiro de 1953 e depois em livro na coletânea Textos Recobrados, em três volumes, publicado pela editora Emecé. El destino de Ulfilas está no volume II, que saiu em 2001, quinze anos, pois, após sua morte. Logo soube também que sobre Úlfilas havia Borges se dedicado ao escrever Literaturas Germânicas Medievais, publicado em 1966, em colaboração com Maria Esther Vásquez, o qual não obstante jamais teve nas mãos. Tomado de surpresa e espanto em medidas iguais, leu então, devida e rapidamente traduzida em seu diário, a anotação que segue:

Notas para escrever sobre o destino da tradução da Bíblia feita por Úlfilas. Referência: Enciclopédia Britânica, 11ª edição.

Úlfilas (nascido por volta de 311 d.C. e falecido por volta de 382 em Constantinopla) foi um bispo e missionário que evangelizou a Europa (na verdade os godos, que viviam às margens do Danúbio – ostrogodos, além; visigodos, aquém).

Os godos não tinham alfabeto. Usavam runas, que eram escupidas em pedra, madeira ou metal e com as quais deixavam registros para fins rituais e de proteção. As runas não possibilitavam a escrita de um texto longo. Tinham, portanto, valor simbólico e espiritual.

Úlfilas teria criado o alfabeto gótico e feito a primeira tradução da Bíblia para a língua germânica. O alfabeto criado por Úlfilas não deve ser confundido com a escrita gótica, que é uma maneira de escrever o alfabeto latino. O alfabeto criado por ele possuía 27 letras, das quais 20 derivavam da escrita uncial grega (?), as restantes eram emprestadas do Latim e da escrita rúnica. Embora sua tradução tenha se perdido, diversos documentos dos séculos V e VI reproduzem fragmentos dela, como o Codex Argenteus. Hoje extinta, esses documentos preservam os únicos registros da língua gótica.

São Jerônimo iniciou sua tradução da Bíblia para o Latim pouco depois da data que se supõe Úlfilas tenha morrido. A tradução de São Gerônimo (sic), a Vulgata, teve como fonte a Bíblia Hebraica (Tanakh – Velho Testamento) e para o Novo Testamento, com correções, a Vetus Latina, uma tradução latina informal de textos bíblicos do início do século I d.C. (A Vetus Latina chegou ao nosso tempo por meio de vários códices: Codix Bobbiensis – contém fragmentos dos Evangelhos de Marcos e Mateus; Codix Bezae – contém os quatro Evangelhos, Atos dos Apóstolos e 3 João; Codex Vindobonemis – contém fragmentos dos Atos dos Apóstolos e as catorze Epístolas).

Não se sabe, contudo, o quanto São Jerônimo dominava o hebraico. Por isso, acredita-se que sua versão do Velho Testamento tenha como fonte a versão de Símaco, o Ebionita, incluída na Hexapla de Origenes, que compara versões do Velho Testamento à Septuaginta. Os poucos fragmentos do texto de Símaco que conhecemos fazem parte da Hexapla, que provavelmente só teve uma cópia, supostamente abrigada na biblioteca dos bispos de Cesaria por séculos e que se perdeu durante a invasão islâmica em 638. A obra de Frederick Field, Originis Hexaplorum quae supersunt (Oxford, 1875), é a reconstrução definitiva dos fragmentos da Hexapla que restam.

A Septuaginta é uma tradução do Tanakh para o grego koiné (forma popular do grego, dialeto, que emergiu entre os mediterrâneos no período pós-helenístico).

Subitamente, a anotação não teve sequência, o que, suspeita, revelaria a caráter dispersivo e lacunar das leituras e apontamentos de Borges. O que viu a seguir, novamente, foram registros e fichamentos de livros lidos, esboços de frases do que poderiam compor um poema, notas de verbetes da Enciclopédia Britânica (cacoete: em todas as notas a referência à 11ª edição – Borges possuía os 29 volumes daquela edição e a considerava superior às posteriores, que para ele teriam se americanizado), rascunhos de exercícios de traduções do alemão, uma língua que aparentemente, então, não dominaria completamente, uma menção fugidia a Adolfo Bioy-Casares: “As vésperas de Fausto no próximo sábado. Esse livro tão cedo já quase tão esquecido. Encontro na Biblioteca Nacional. Vitoria Ocampo estará. Bom momento para esquecer que Perón existe”. Não foi até o fim. O cansaço o pegou, fechou o caderno e o guardou. A incerteza de que teria encontrado numa situação tão insólita um manuscrito de Borges o excitou, mas logo aquele inusitado caderno deixou de ocupar sua atenção. Cogitou deixá-lo no Hotel, com o sentimento de que seria apenas mais um volume na bagagem atulhada de livros que havia comprado na El Ateneu (Nueva Historia Argentina, Coordenación general de Juan Suriano, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 2000, em 5 caudalosos volumes pesava bastante). Desistiu do intento, contudo, e pô-lo ao lado de Relato, cuentos, poemas y miscelâneas, de Macedonio Fernández, que comprara. Ao voltar a São Paulo, entretanto, considerou o quanto seria constrangedor mostrar a amigos a suposta relíquia. Seria motivo de deboche se dissesse haver encontrado em Buenos Ayres um caderno de Borges no lixo. Não conhecia, de qualquer forma, nenhum borgiano a quem pudesse submetê-lo e que lhe poderia garantir a veracidade ou não do que encontrara. Meses depois, tomado de insônia e preocupações com o trabalho, foi ao escritório e avistou e colheu o caderno que estava na escrivaninha, onde o havia deixado desde a volta de Buenos Ayres. Abriu-o desatentamente numa página ao acaso e, espantado, viu:

Úlfilas!!! Úlfilas!!!

Li Charles Archibald Anderson Scott – Ulfilas, Apostle of the Goths, Cambridge (1885). Exemplar da biblioteca.

Ficha: Não há garantia sobre como Úfilas (sic) viveu. Arianos e católicos deixaram fragmentos narrativos divergentes sobre sua vida. As fontes são: “A vida de Úlfilas, na “Carta de Auxêncio”, de Auxêncio de Durostoro (ariana); “História Eclesiástica”, de Filostorgio (ariana); “História Eclesiástica”, de Sozomeno (católica); “História Eclesiástica”, de Sócrates Escolástico (católica); “História Eclesiástica”, de Teodoreto (católica). As fontes arianas apresentam Úlfilas como ariano desde a infância, que foi consagrado bispo por volta de 340 e pregou entre os godos por sete anos. Ele participou de diversos concílios e de contínuos debates religiosos. Era protegido pelo imperador ariano Constâncio II e morreu em 383. Já para os católicos Úlfilas foi um cristão ortodoxo que se converteu ao arianismo por volta de 360. Os relatos católicos por sua vez diferem entre si quanto ao papel de Úlfilas na conversão dos godos ao catolicismo. Entre arianos e católicos, Scott defende que os primeiros são mais confiáveis. Auxêncio era seu enteado e foi seu discípulo. Na Carta, Úlfilas afirma o credo do hominismo, posição intermediária entre nicenianos e arianos: “Eu, Ulfila, bispo e confessor, sempre acreditei assim, e nesta, a única fé verdadeira, faço a jornada até o Senhor; creio em um só Deus Pai, o único não gerado e invisível; creio em seu filho unigênito; creio em um só Espírito Santo, o poder iluminador e santificador, como Cristo revelou a seus discípulos após a ressureição”.

Passou então avidamente a folhear o caderno. Não havia percebido antes, mas bem antes das notas para o destino da tradução…, nas primeiras páginas do caderno, a definição… Arianismo: doutrina (ou heresia) cristã que ensina que o Pai é anterior ao Filho, pois o que engendra é anterior ao que é engendrado, se bem que se admite que a misteriosa geração ocorreu antes do tempo e fora do tempo… (ipsis literis como está no ensaio borgiano, inclusive com o vício do queismo…). Encontrou também o registro avulso: O primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.) condenou o arianismo, estabelecendo o Credo Niceno, que afirma ser Jesus “gerado, mas não criado, pois consubstancial ao Pai”. O caderno, que o desinteressara e que a qualquer momento voltaria ao lixo, aguçou desmedidamente sua atenção. Afoito, passava por suas páginas impacientemente para ver se havia mais anotações que fizessem alusão a Úlfilas. Até que:

Úlfilas estava no Sinodo de Constantinopla em 360, quando a seita de Acácio triunfou e emitiu seu credo em oposição a nicenianos e arianos. É lamentável que a carreira de Úlfilas tenha sido marcada por sua posição contrária a ortodoxia. Pode-se dizer que ele foi vítima das circunstâncias. Sua falta de ortodoxia privou sua obra de influência permanente. Seus esforços impressionaram não apenas os godos, mas também outros povos teutônicos. Devido a visões heréticas que sustentava, contudo, elas foram incapazes de se manter nos reinos que se impuseram após a queda do império romano.

Sem qualquer referência a fonte bibliográfica, como invariavelmente ele havia observado que era feita no caderno, e supondo ter sido Borges seu autor, nesse registro o indício do eixo que o conduziria à elaboração do ensaio sobre o destino de Úlfilas. Sua certeza a esse respeito aumentava, tanto quanto permanecia o mistério: por que aquele caderno fora parar no lixo? O sono, na excitação em que estava, não houve como voltar. Ávida e meticulosamente folheou o caderno até o fim antes de voltar para a cama. E assim, extasiado com o que estava lendo, já nas últimas páginas se deparou com o que se lê abaixo:

Os idiomas germânicos permitem palavras compostas; Ufilas (sic) as forja e emprega gud-hus (casa de Deus) por templo e figgra-gulth (ouro do dedo) por anel. Traduz mundo (cosmos, ordem, no original) por fair-hvus (fair house). Na Epístola de São Paulo aos Gálatas, recorre à palavra gentis, que se opõe a cristãos, fiel ao rigor etimológico, e a traduz por thiudos, plural de thiudisks (popular) que ao cabo de séculos resultará em teutsch e tedesco (Ovídio e Juvenal usaram paganus como sinônimo de rústico; depois o nome se aplicou aos aldeãos. Gibbon sugere que o cristianismo só opõe paganus a urbanus por volta do ano mil. O cristão era soldado de Cristo, o idólatra, um mero paisano ou civil. Na Espanha, paisano guarda os sentidos de rústico e de não militar). Ker deplora a servil literalidade do trabalho de Úlfilas. Não leva em conta, sem dúvida, que o tradutor foi inspirado por um texto sagrado.

Essa anotação, que estava nas últimas páginas do caderno, com leves alterações, como pôde observar ao consultar durante o dia – mal conseguira dormir e ao acordar tão logo cumpriu compromissos de trabalho lançou-se a pesquisas ad doc sobre Úlfilas e Borges – os originais de El destino de Ulfilas publicado na Buenos Aires Literaria, é praticamente literal. No ensaio de Borges, entretanto, Ker é citado sem nenhuma referência, o que acentua seu estilo peculiar, com o qual se esmera simultaneamente em citar livros lidos e deixar uma aura de mistério, de calculada imprecisão sobre a existência ou não de autores citados. A curiosidade e constatou que Ker refere-se a William Paton Ker, influente crítico literário escocês, professor de Literatura Inglesa no University College London que publicou em 1904 The dark ages, no qual trata da literatura europeia na Idade Média e dá especial destaque à tradução que Úlfilas fizera da Bíblia. A quem quer que tenha pertencido o caderno, o modo como Ker foi citado praticamente não deixava dúvida ter sido JL Borges.

No entanto, não consegue, não tem qualquer sinal, nem se dispõe a um esforço detetivesco para averiguações, o que implicaria voltar a Buenos Ayres e investigar sobre como papeis que teriam sido escritos por Borges teriam sido postos na rua para a chegada do lixeiro, pois nenhum especialista, está convicto disso, jamais o convenceria definitivamente. Mas não sabe, e seria possivelmente uma tentativa fadada ao fracasso, sequer de onde teriam saído os papéis deixados na rua. Tampouco supõe quem tenha feito isso não soubesse quem foi JL Borges. Pelo volume que vira, especula que de algum prédio próximo à calçada. Qual deles? Em qual andar? Investigar essa especulação, não obstante, se levada a cabo teria resultado tão fantasioso quanto a esperança de encontrar agulha em um palheiro. Imagina, claro, e nisso um conjunto de circunstâncias acidentais que tornam o absurdamente improvável em conjectura tão só descabida, um estudante de letras ou religião contemporâneo de Borges – folhas amareladas deixam indícios de que o caderno tinha décadas de existência – possa ter rabiscado algumas notas para estudo e que só casualmente a alusão a El destino de Ulfilas lhe tenha despertado a atenção numa implicação indevida. Uma vez que, de fato, não reúne condição para ter certeza de que o caderno que tem em mãos tenha pertencido a JL Borges. Essa dúvida excruciante, não imagina jamais uma certeza definitiva, lhe desperta como que com um aviso: passados alguns anos, os inúmeros diários que escreve, e que os mantém há décadas, e…, por um golpe de sorte, o que de Úlfilas chegou a Borges correndo séculos, chegou a ele…, o que, por um golpe de sorte, em um futuro tão incerto,  se pode inadvertidamente ser extraído de uma lata de lixo…, ser lido quando jamais se esperava que o fosse…

 

Foto: Libreria El Ateneo Grand Splendid – Franklin Valverde