Sentiu ela, a pequena, com os pais dormindo no quarto ao lado, as portas ficavam sempre abertas de ambos os quartos, que a torneira do lavatório do banheiro deles, vulgo suíte, estava pingando.

Deitara-se havia pouco, a pequena; estava sonolenta, mas sem pegar no sono e sem forças para se levantar não queria sair da cama; tampouco gritar para os pais, em sono profundo, ambos roncando, e avisar que a torneira do lavatório deles estava pintando.

O som dos pingos da torneira, na verdade, era bastante abafado, distante, menos audível que o ronco dos pais, que o latido de um cachorro na rua; súbito, a pequena desconfiou, podia os estar imaginando: não é certo, ficou matutando; não é aqui, também, na suíte de meu quarto, depois do closet; isso eu sei, pois o som vem de lá, do quarto deles.

Não conseguia, todavia, dormir com o som da torneira pingando, até que, num sobressalto, levantou-se com a sensação de que o quarto dos pais estava inundado, e que, dormindo profundamente, eles não perceberiam a fúria da água, que chegaria ao pé da cama, alçaria as longarinas e os alcançaria sem lhes dar chance de salvação.

De pé, então, atabalhoada, a pequena dirigiu-se ao banheiro d`onde ouvia o som de pingos d`água da torneira e, embora não tivesse a força da mão do pai para apertá-la até que esta não mais ficasse pingando, apertou-a com a força máxima que suas mãos tinham e voltou para a cama.

Deitada, sem o desagradável som da torneira pingando, a pequena, enfim, com muito sono, pensou que podia relaxar e dormir.

Debalde, impossível contudo lhe era relaxar, pois com a sensação de que havia cochilado e sonhado com a inundação, que havia cochilado e sonhado ter ido ao quarto dos pais fechar a torneira do lavatório, com a sensação de estar sonhando que tinha tido a sensação de que o som da torneira pingando, distante, abafado, não havia cessado.

“Marido! A torneira tá pingando!”, ouviu, a pequena, a mãe, de seu quarto, advertir o pai, que, dormindo, não respondeu; ou, sem tanta certeza, antes de finalmente dormir, ela imaginou tê-la ouvido.

 

Ilustração: “Pingo” – Franklin Valverde